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FELÍCIA
Jogou a mochila nas costas e partiu sem deixar bilhete. Amava e fora cruelmente traído. Outra coisa não podia fazer senão partir. Então, saiu de casa em um meio de tarde luminoso. Não procurava respostas na próxima esquina. Nem deixava aos pais um sopro que revelasse pista de sua dor. Sua irmã anunciara o casamento na noite anterior. Noite longa, que lhe pesou toneladas na alma turva. Bebeu todo amargor do silêncio dela e o veneno de seu olhar risonho. Morrera e matara mil vezes até o dia amanhecer, frio e indiferente. Ao bater a porta, instantes atrás, lembrou-se de ter lido em Proust que “para sofrer verdadeiramente por uma mulher, cumpre haver acreditado completamente nela”. Ele acreditara nela. Não ficaria para o casamento, não podia ficar. Logo seria noite.
Escrito por Carlos Barbosa às 17h58
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AINDA A SEXTA
A vida é urgência, como sempre será urgente o repouso. Lamento apenas o desperdício de prazeres. Toda dor é mestra, suportável e amiga. Aquela insuportável, não a sentimos, não a conhecemos. Mas há a dor-verruma que se crava impiedosa n’alma: a do amor invivido – esta, nada ensina, broca o peito.
Passou a sexta-feira, vivi o sábado, estive prestes, sobrevivi. Virá nova sexta. Até lá engordarei um pouco mais o caldo de expectativas.
Escrito por Carlos Barbosa às 00h16
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