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A MUDANÇA
Muita gente participou da mudança. Mudança pra ser feita no muque, nas costas, em procissão de móveis, panelas e caixas, que atravessaria a cidade. E começou com cantorias, mutirão entusiasmado.
Na primeira esquina, começaram as deserções. Um, torceu o pé; outro, alegou problemas de coluna; e um terceiro já era líder de um surdo movimento antimudança.
Na segunda esquina, havia uma procissão paralela de mãos abanando, movida a cachaça e chistes.
Na terceira, deserções ampliadas, descobriu-se que cambistas faziam a festa, vendendo folgas e substituições, Na vanguarda, o dono da mudança acenava para o povo nas calçadas e distribuía copinhos de batida de limão, tudo zero-oitocentos.
Na quarta esquina, descobriu-se que parte dos móveis, utensílios e caixas não pertencia à mudança. O dono da mudança, chamado às falas, disse não saber de nada.
Chamaram a polícia. A mudança empacou. Depois teve seu caminho desviado por piquetes policiais, mediante negociação esconsa, segundo denúncias que partiram da calçada defronte.
Acabaram-se as esquinas e a turma do mutirão descobriu, de repente, que não sabia o endereço de entrega da mudança. Procuraram pelo dono, o agitador do mutirão.
Procuram por ele até hoje, com a mudança nas costas.
Escrito por Carlos Barbosa às 21h49
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