
Bryce Dallas Howard interpreta Story. Miss Howard possui várias belezas, algumas decifráveis.
Tudo que precisamos para viver de verdade é de uma história, pelo menos uma. Só é necessário permitir-se acreditar, romper as amarras racionais e materialistas, ‘fazer o coração mandar’.
“Ninguém sabe quem se é mesmo”, é a fala-chave da história vivida na tela. E vem do Oriente, como quase tudo que apela à espiritualidade. O mito crístico é visível: figura de origem divina - cuja presença é suficiente para o despertar de idéias novas - que morre e ressuscita e depois sobe aos céus nas garras de uma águia.
Alguém tem ou terá as idéias que podem mudar o mundo. E esse alguém é ou será um escritor. Um livro precisa ser escrito para que outros o leiam e de suas idéias se sirvam em benefício de todos. Falta Story a muitos escritores.
O apelo à comunidade global está presente: negros, indianos, asiáticos, arianos, latinos, empurrando Story para diante, na luta contra seu inimigo mortal. Qual? Ora, a história é de cada um e cada um tem o seu inimigo preferencial. O planeta tem um: o homem.
Em um crítico de cinema e literatura, Shyamalan encarnou o que temos de pior: tudo que se opõe ao sonho, à fé, à harmonia, à compaixão, à beleza de uma metáfora bem construída – a tola e fria vaidade intelectual.
Simplório, despretensioso, muitos podem fazer beicinho e achar o filme uma bobagem, em tempos trevosos como os atuais. Mas é fantasia que apela para o que temos de melhor como seres humanos e que, a cada dia, solapamos em nome do cientificismo, do pragmatismo, do business desenfreado.
“A dama na água” é cinema de sonho. E Miss Howard o incorpora à perfeição.