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SOLITUDE
O homem solitário estende a mão, pega o livro sobre o sofá e retoma a leitura. Os aparelhos, à sua volta, permanecem desligados. O homem lê Kafka, “Na colônia penal”. Um silêncio de estúdio toma conta do apartamento. Talvez seja noite no Brasil. O homem solitário entrega o mundo, lá fora, ao seu natural desconcerto. E sente em silêncio, enquanto lê, o quanto dói pensar, o quanto dói criar, "o quanto dói viver".
Escrito por Carlos Barbosa às 20h16
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THIAGONIA
Os sinos também repicam para quem nasce. Um tiro na noite e um corpo na estrada são apenas cenário para quem por ela passa a cem por hora. E pode ser uma mulher em trabalho de parto conduzida numa ambulância do Samu. O olhar daquele pai, sentado ao lado da parturiente, percebe a tragédia lá fora, mas seu coração tremula de alegria. E de um pouco de agonia pelo futuro incerto que a criança por certo terá. Assim tropeça a humanidade.
Bom mesmo é reparar nos livros. Nos que lemos e nos que escrevemos. Está lá o que procuramos. Não está lá o que desejamos. Esta, a maior agonia: nascer da morte, viver no escuro. Nós e os livros, nós nos livros.
Escrito por Carlos Barbosa às 00h46
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FELÍCIA
Jogou a mochila nas costas e partiu sem deixar bilhete. Amava e fora cruelmente traído. Outra coisa não podia fazer senão partir. Então, saiu de casa em um meio de tarde luminoso. Não procurava respostas na próxima esquina. Nem deixava aos pais um sopro que revelasse pista de sua dor. Sua irmã anunciara o casamento na noite anterior. Noite longa, que lhe pesou toneladas na alma turva. Bebeu todo amargor do silêncio dela e o veneno de seu olhar risonho. Morrera e matara mil vezes até o dia amanhecer, frio e indiferente. Ao bater a porta, instantes atrás, lembrou-se de ter lido em Proust que “para sofrer verdadeiramente por uma mulher, cumpre haver acreditado completamente nela”. Ele acreditara nela. Não ficaria para o casamento, não podia ficar. Logo seria noite.
Escrito por Carlos Barbosa às 17h58
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AINDA A SEXTA
A vida é urgência, como sempre será urgente o repouso. Lamento apenas o desperdício de prazeres. Toda dor é mestra, suportável e amiga. Aquela insuportável, não a sentimos, não a conhecemos. Mas há a dor-verruma que se crava impiedosa n’alma: a do amor invivido – esta, nada ensina, broca o peito.
Passou a sexta-feira, vivi o sábado, estive prestes, sobrevivi. Virá nova sexta. Até lá engordarei um pouco mais o caldo de expectativas.
Escrito por Carlos Barbosa às 00h16
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A MUDANÇA
Muita gente participou da mudança. Mudança pra ser feita no muque, nas costas, em procissão de móveis, panelas e caixas, que atravessaria a cidade. E começou com cantorias, mutirão entusiasmado.
Na primeira esquina, começaram as deserções. Um, torceu o pé; outro, alegou problemas de coluna; e um terceiro já era líder de um surdo movimento antimudança.
Na segunda esquina, havia uma procissão paralela de mãos abanando, movida a cachaça e chistes.
Na terceira, deserções ampliadas, descobriu-se que cambistas faziam a festa, vendendo folgas e substituições, Na vanguarda, o dono da mudança acenava para o povo nas calçadas e distribuía copinhos de batida de limão, tudo zero-oitocentos.
Na quarta esquina, descobriu-se que parte dos móveis, utensílios e caixas não pertencia à mudança. O dono da mudança, chamado às falas, disse não saber de nada.
Chamaram a polícia. A mudança empacou. Depois teve seu caminho desviado por piquetes policiais, mediante negociação esconsa, segundo denúncias que partiram da calçada defronte.
Acabaram-se as esquinas e a turma do mutirão descobriu, de repente, que não sabia o endereço de entrega da mudança. Procuraram pelo dono, o agitador do mutirão.
Procuram por ele até hoje, com a mudança nas costas.
Escrito por Carlos Barbosa às 21h49
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O ESCRAVO
Dez vezes abandonei-a, e dez vezes voltei.
Agora, ela sabe que não partirei mais.
E, contudo, não a quero.
Se ela morresse amanhã, eu seria feliz, seria livre!
Conhecestes, acaso, a tortura de soluçar sobre um corpo de mulher aviltado por outras carícias?
Conhecestes a vergonha de não poder arrancar-se do lado de uma mulher porque seu corpo é maravilhoso?
Hoje, bati-lhe; e, como me desafiasse ainda, ardente, transfigurada, com um luz tão bela nesses olhos divinos, atirei-me sobre sua boca como quem se mata, e jamais beijo algum foi mais voluptuoso.
Quando a ameaço, estira-se preguiçosamente.
Quando ameaço os seus amantes, põe-se a cantar uma canção jocosa.
Quando falo em matar-me, contenta-se com perguntar: "E quem cuidará de tuas rosas?"
E vivo minha vergonha, esperando que esse corpo incomparável murche, como minhas rosas.
(de Autor desconhecido, escrito há séculos e recolhido pelo francês Franz Toussaint, em data imprecisa, in "As mais belas páginas da literatura árabe", traduzido e selecionado por Mansour Chalitta, 1973, Associação Cultural Internacional Gibran)
Escrito por Carlos Barbosa às 23h28
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O CASAMENTO DO SÉCULO
O casamento foi aprovado com entusiasmo pelas famílias, com poucas exceções. Tudo parecia caminhar bem, mas a nova casa mexeu com os ânimos do casal. Bem, mexeu mais com ele, para ser sincero. Já não era mais o mesmo. Comprou carro novo e passou a viajar constantemente, gastando os tubos e tudo que por dentro deles pudesse escorrer. E a falar muito, contando vantagens, em casa e em qualquer lugar. Até que fatos estranhos se sucederam: jóias sumiram, a porta da cozinha amanheceu arrombada, cobradores batiam à porta da frente, as novas amizades pareciam e eram estranhíssimas, seu sócio apareceu morto em uma estrada vicinal, o nome dele sujo na praça, e, espantoso, ele garantia a ela que tudo era mentira e se algo acontecera, ele de nada sabia. Mas ela o amava. Amava tanto que continuava na casa, feliz, esperando pelo dia seguinte. Vez em quando, espiava pela janela os seguranças no jardim, jogando cartas a virar goles de branquinha. E seguia pensando no filho que ele queria para o ano que vem, enquanto esfregava gelo no olho roxo.
Escrito por Carlos Barbosa às 22h01
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A DAMA NA ÁGUA

Bryce Dallas Howard interpreta Story. Miss Howard possui várias belezas, algumas decifráveis.
Tudo que precisamos para viver de verdade é de uma história, pelo menos uma. Só é necessário permitir-se acreditar, romper as amarras racionais e materialistas, ‘fazer o coração mandar’.
“Ninguém sabe quem se é mesmo”, é a fala-chave da história vivida na tela. E vem do Oriente, como quase tudo que apela à espiritualidade. O mito crístico é visível: figura de origem divina - cuja presença é suficiente para o despertar de idéias novas - que morre e ressuscita e depois sobe aos céus nas garras de uma águia.
Alguém tem ou terá as idéias que podem mudar o mundo. E esse alguém é ou será um escritor. Um livro precisa ser escrito para que outros o leiam e de suas idéias se sirvam em benefício de todos. Falta Story a muitos escritores.
O apelo à comunidade global está presente: negros, indianos, asiáticos, arianos, latinos, empurrando Story para diante, na luta contra seu inimigo mortal. Qual? Ora, a história é de cada um e cada um tem o seu inimigo preferencial. O planeta tem um: o homem.
Em um crítico de cinema e literatura, Shyamalan encarnou o que temos de pior: tudo que se opõe ao sonho, à fé, à harmonia, à compaixão, à beleza de uma metáfora bem construída – a tola e fria vaidade intelectual.
Simplório, despretensioso, muitos podem fazer beicinho e achar o filme uma bobagem, em tempos trevosos como os atuais. Mas é fantasia que apela para o que temos de melhor como seres humanos e que, a cada dia, solapamos em nome do cientificismo, do pragmatismo, do business desenfreado.
“A dama na água” é cinema de sonho. E Miss Howard o incorpora à perfeição.
Escrito por Carlos Barbosa às 21h27
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DOIDA DULCE
Doida, Dulce a rua desce
Afoitamente, docemente, um véu
Espelha um seu céu com flores
Perfumes, amores
E desce a rua – tocada
Quer ser feliz – risada
Tosse baixinho – pedrada
Mas Doida Dulce se afoga em sorrisos
Senhora e livre em seu paraíso
Com mais de um filho doutor
Uma casa em flor
Muita gente ao redor
Doida Dulce, doida
Doida, dulcemente
Doida Dulce, dor
Dulce gente
(Poema? Miniconto? Pode ser, a depender das leituras e ou da boa vontade do leitor. Mas "Doida Dulce" é letra de música de autoria de Washington Coutinho, Juarez Pereira e este que ora escreve, feita por volta de 1979, tempo em que sabíamos cantar.)
Escrito por Carlos Barbosa às 16h33
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CRONIQUETA DAS SURPRESAS
A primeira se deu na livraria: meu romance, A Dama do Velho Chico, exposto na bancada de novidades, no mês em que completa quatro anos de vida pública.
A segunda veio na sala de cinema: um microfone intrépido a se meter insistentemente em cena, em um dos melhores filmes do ano - tanto que já o assisti três vezes - um’outra dama, A Dama na Água.
A terceira aconteceu por ocasião do jantar: jantar apenas pretendido, pois o restaurante, que fica aberto até a meia-noite, estava fechado às 19 horas – e o “camarão a Joel” não foi, desta vez, degustado.
E a quarta tem sido a chuva, aliada ao frio, sempre despropositada em setembro.
Ficamos assim: falhas acontecem mesmo em Hollywood, o tempo se vinga diuturnamente dos excessos humanos e nossas casas comerciais não entendem muito bem dos negócios que tocam, ou pelos quais são tocadas.
Alguma surpresa? Era sábado, o tal dia das possibilidades extremas.
Escrito por Carlos Barbosa às 20h08
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CÃO
A coleira, dela; a corrente, minha. Juntas, prendiam o cão, que tentava avançar. Retido, o cão empinava as patas dianteiras e rugia. Havia algo diante dele que o enlouquecia, talvez uma possibilidade de carne, cheiros a nós imperceptíveis, certa liberdade para espojamentos, o esperado sonho. Minha corrente era resistente; a coleira dela, firmemente jungida ao pescoço do cão, expunha frias iniciais. Uma luta silenciosa entre a liga metálica, o desejo canino e a apreciação humana. Eu fui para casa; ela, não sei. E o cão ainda agoniza engasgado pela própria baba.
Escrito por Carlos Barbosa às 19h10
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A VIDA AOS SÁBADOS
Digamos que o começo da semana é o começo da vida. Então, segunda-feira seria a infância; quarta, a mocidade; e sexta, a maturidade. Sábado, bem... porque é sábado, esse é o dia das possibilidades extremas, inclusive a de se recomeçar aos domingos.
Tive uma infância maravilhosa, mas a mocidade foi conturbada. Fui chamado a tomar decisões angustiantes, eu que era todo calmaria. Optei por ficar quieto em meu canto, sofrendo mais uma vez de incompreensão, cobranças descabidas e altas exigências. Mas o mundo lá fora reluzia, feérico. Compus mais um trecho de um longo poema, Inventário da triste figura – “Solidão: única amizade sólida que o mundo oferece”. Cheguei triste à minha maturidade. Mas nela M. me esperava, e nela tive meu conforto. M. dorme ao meu lado, serena e serenada. Faz um incompreensível frio lá fora. Daqui a pouco será sábado.
Escrito por Carlos Barbosa às 23h15
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OS ENCONTROS
De dez em dez anos, a turma comparece ao encontro. “Muda só a aparência, a amizade nunca”. A farra é o que é: redemoinho de desejos. Há separados e rejuntados; recém-nascidos e enviuvados; sóbrios e insanos; os que não envelhecem e os tornados anciãos; os sãos e os adoentados; os que fumam tudo e os que ainda mijam em becos; os ausentes que marcam presença e os presentes invisíveis; mas todos bebem algo, mesmo que goles de esperança; e ninguém deixa de se divertir. De tanto observar, e por duvidar até mesmo do sistema solar que, volta e meia, aumenta ou encolhe, alguém deixou escapar ao olhar as fotografias, dias depois do encontro: “acho melhor esse encontro acontecer todo ano”.
Escrito por Carlos Barbosa às 19h59
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A ESTAGIÁRIA
No primeiro dia, prolongou sua jornada um pouco mais, a pedido do chefe. No segundo dia, trabalhou a noite toda com o chefe. Dias depois, foi o gerente quem lhe pediu para ficar até mais tarde. No outro dia, o gerente não trabalhou a noite toda, pois precisava dormir em casa, era casado. E assim, para a felicidade dos pais, a estagiária cumpriu com louvor seu programa de preparação profissional. O que ninguém ficou sabendo foi que, no horário de almoço, quando o escritório fechava, a requisitada estagiária amava com todo ardor o office-boy, no sofá da sala do chefe.
Escrito por Carlos Barbosa às 00h43
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À LUZ DE PIGLIA
Piglia cita Pound: a leitura é uma arte da réplica. Fecho o livro e vou até a janela. O cemitério de Quintas é uma mancha escura entre luzes esparsas. Hesito em fechar a janela e virar-me. Ocorre-me pensar que não estou seguro de estar à janela, mirando uma mancha escura entre luzes esparsas. Por um instante habito uma réplica. Então, volto a ler. E nada mais há que a luz do livro.
Escrito por Carlos Barbosa às 00h39
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